monte do templo

Daniela Kresch

TEL AVIV — O ato de rezar num platô de 150 mil metros quadrados — pouco maior do que o Maracanã — no centro da Cidade Velha de Jerusalém pode atiçar o já inflamável conflito entre judeus e árabes no Oriente Médio. Grupos de israelenses ultranacionalistas demandam cada vez mais o direito de orar no local que chamam de Monte do Templo, onde, há dois mil anos, ficava o Templo de Herodes, destruído no ano 70, e antes dele, o famoso Templo de Salomão. Parte da parede de contenção desse monte é o famoso Muro das Lamentações, tradicional local de oração para os judeus — por ser o ponto mais próximo do templo com acesso livre — e visitado por mais de 3,5 milhões de turistas estrangeiros anualmente.

Mas para os muçulmanos, o lugar se chama Esplanada das Mesquitas, ponto que perde em importância religiosa apenas para Meca e Medina, na Arábia Saudita. É lá que ficam as mesquitas de al-Aqsa e de Omar, a do famoso domo dourado que colore os cartões postais de Jerusalém.

Não parece haver um lugar mais sensível na disputa territorial e religiosa entre judeus e árabes na Terra Santa. Afinal, é nesse ponto do planeta que passagens-chave de livros sagrados como a Bíblia e o Alcorão aconteceram, como o sacrifício de Isaac por Abraão e a subida aos céus do Profeta Maomé. As questões em torno do local são tão delicadas que o moderno Estado de Israel — que controla os lados ocidental e oriental de Jerusalém desde 1967 — prefere não se intrometer e manter os jordanianos como zeladores dos sítios religiosos muçulmanos de Jerusalém, incluindo a Esplanada das Mesquitas.

Atualmente, a entrada de turistas não muçulmanos — incluindo judeus — na Esplanada é permitida, mas eles não podem rezar por lá. Nos últimos tempos, no entanto, centenas de judeus religiosos têm visitado o local para orar, em hebraico. Fazem parte de grupos como a Central das Organizações do Templo (que diz reunir 27 ONGs judaicas em prol das orações no Monte do Templo). Eles sussurram bênçãos e recitam partes da Bíblia — às vezes fingindo que estão falando no celular — antes de serem expulsos por policiais. Muitas vezes, causam tensão com os muçulmanos que frequentam a Esplanada.

Apoio dentro do parlamento

Essa minoria é rejeitada pela maior parte dos israelenses, seculares ou religiosos “light”, que entendem a delicadeza da situação e costumam visitar apenas o Muro das Lamentações. Mas os ultranacionalistas começam a encontrar apoio entre políticos de partidos de extrema-direita que fazem parte do governo do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. Um deles é o ministro da Construção, Uri Ariel, do partido A Casa Judaica, que defende abertamente a permissão para orações judaicas no Monte do Templo.

— O local é nosso e não pode ser negociado — disse Ariel recentemente.

Parlamentares do partido governista Likud, como Miri Regev e Moshe Feiglin, também não escondem o apoio ao controle israelense do Monte. Outro que apoia a mudança no status quo é o rabino Eli Ben-Dahan, vice-ministro para Assuntos Religiosos. Durante uma turbulenta sessão da Comissão do Interior do Parlamento israelense, em novembro, Ben-Dahan defendeu que judeus possam rezar uma hora por dia no Monte do Templo.

— Há uma crescente realidade de setores da população que querem subir no Monte do Tempo para rezar, e há rabinos encorajando isso. Temos que reconhecer essa realidade — disse Ben-Dahan.

O parlamentar árabe-israelense Jamal Zahalka reagiu exaltado:

— Não existe Monte do Templo!

Outro parlamentar árabe-israelense, Ahmad Tibi, foi mais direto e disse que a terceira Intifada palestina (revolta contra Israel) pode explodir porque os israelenses estariam “brincando com fogo”. Ele se referiu à visita do ex-primeiro-ministro israelense Ariel Sharon à Esplanada das Mesquitas em 2000, depois que mais um acordo de paz entre israelenses e palestinos falhou. A visita foi encarada como uma provocação e é considerada o estopim da segunda Intifada (2000-2005).

Líderes muçulmanos temem que a nova onda de visitas de judeus religiosos leve, no final das contas, à decisão de Israel de destruir as mesquitas sagradas para a construção de um novo templo judaico, aspiração religiosa dos mais devotos. Apesar de o governo negar constantemente essa possibilidade (rejeitada pela maioria dos israelenses), a tensão é palpável.

— Esse local é um símbolo para 1,2 bilhão de muçulmanos. Pertence a nós. Ninguém mais tem o direito de rezar aqui. Se eles tentarem destruir as mesquitas, será o fim dos tempos — proclama, apocalíptico, o xeque Azzam al-Khatib, diretor da Waqf, o órgão jordaniano que administra a Esplanada das Mesquitas.

No dia 30 de novembro, o Alto Comitê Religioso Muçulmano realizou uma reunião de emergência na qual condenou o “a tentativa de Israel de dividir a Mesquita de al-Aqsa por critério de tempo entre muçulmanos e judeus”. Segundo o comitê, Israel planeja no final das contas invadir a mesquita sagrada. “O contínuo ataque aos lugares sagrados palestinos, principalmente a Mesquita de al-Aqsa, transformará a região numa bomba-relógio que levará em breve a uma guerra religiosa”, concluiu o Alto Comitê.

Censura dos rabinos-chefes

Abd al-Nasser Nassar, principal responsável do governo jordaniano pela custódia dos sítios religiosos árabes de Jerusalém disse ao jornal “al-Rad” que é contrário a qualquer acordo que admita orações judaicas na Esplanada das Mesquitas, mesmo que só num local pré-determinado.

O medo dos muçulmanos quanto às intenções de Israel na Esplanada das Mesquitas não parece arrefecer nem mesmo quando os rabinos-chefes do país proíbem categoricamente que judeus orem no Monte do Tempo. A proibição — emitida pela primeira depois da Guerra dos Seis Dias, em 1967, quando Israel passou a controlar a Cidade Velha de Jerusalém — foi ratificada no último dia 2 de dezembro pelos novos rabinos-chefes, o ashkenazi David Lau e o sefaradita Yitzhak Yossef. Mais além da questão geopolítica, os rabinos são contra a oração no local porque ninguém sabe onde exatamente ficava o “Santo dos Santos”, a sala mais sagrada do Tempo de Salomão onde acreditava-se que o próprio Deus habitava. Pisar lá seria um pecado mortal.

Mas há cada vez mais israelenses observantes que querem rezar no local citado tantas vezes na Bíblia, centro da vida judaica até a expulsão judaica de Jerusalém, no ano 70. Alguns deles, os mais extremistas, não escondem o desejo de construir um terceiro Templo Judaico no platô.

— Esse é o lugar mais sagrado para nós. Hoje há invasores que roubaram o lugar de nós. Precisamos tirá-los de lá — disse ao GLOBO o ultranacionalista Benzi Guphstein, que organiza grupos de judeus para rezar na Esplanada das Mesquitas. — O Estado de Israel tem medo de expulsar os invasores porque teme uma guerra. Mas eu não tenho medo. Nós temos que saber lutar pelo que é nosso.

Depois de ser expulso várias vezes do local, Gupshtein — discípulo do ex-rabino ultraextremista Meir Kahane, assassinado em 1990 — foi banido de visitar o Monte do Tempo. Tem uma mandato de prisão expedido contra ele. Mas ele não perde a esperança.

— Desde os 16 anos eu rezo no Monte do Templo pelo menos uma vez por mês. Ninguém vai impedir que eu continue — garante, desafiador.

Fonte: Extra