Chega a ser imoral a ilação, vazada em tom de censura, segundo a qual a resposta do governo israelense aos terroristas do Hamas obedece às necessidades eleitorais do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, que disputa eleições em janeiro. Para efeitos de pensamento, digamos que sim. E daí? Aonde isso nos levaria? A lugar nenhum! Começo lembrando que, na democracia israelense, com efeito, os políticos obtêm nas urnas a licença para governar o país. Um dos compromissos que os governantes têm com o povo é protegê-lo das ações dos inimigos, que não são poucos nem recentes. Quer dizer que atacar em nome do ódio seria moralmente superior a se defender num ambiente democrático? Ora…

A aviação israelense continuou a atacar ontem alvos do Hamas em Gaza. Um dos prédios destruídos foi o escritório do primeiro-ministro, Ismail Haniyeh, o mesmo em que ele recebera na sexta Hisham Qandil, premiê egípcio – aquele que aproveitou para fazer proselitismo com uma criança morta. A estética do horror não muda nunca! A morte continua a ser um ativo da causa. A morte de uma criança, então, parece gerar um quase êxtase, porque se sabe que a foto correrá o mundo como suposto sinal de mais uma crueldade praticada pelo governo de Israel. Como a propaganda é, literalmente, a alma do negócio palestino, um pequeno cadáver se torna um anúncio publicitário. É asqueroso!

 

Não há como. Enquanto o Hamas for governo na Faixa de Gaza, não há negociação possível com Israel que não um eventual cessar-fogo num estado que continuará a ser de guerra. A razão é simples. O movimento não reconhece a existência do estado israelense nem abriu mão, segundo seu próprio estatuto de destruí-lo – a íntegra está aqui. Destaco alguns trechos (em vermelho-sangue):
– “Israel existirá e continuará existindo até que o Islã o faça desaparecer, como fez desaparecer a todos aqueles que existiram anteriormente a ele. (segundo palavras do mártir, Iman Hasan al-Banna, com a graça de Alá)”

 

– “O Movimento de Resistência Islâmica é um elo da corrente da jihad contra a invasão sionista.”

– “O Movimento de Resistência Islâmica sustenta que a Palestina é um território de Wakf (legado hereditário) para todas as gerações de muçulmanos, até o Dia da Ressurreição.” –

NOTA: O QUE O HAMAS CHAMA “PALESTINA” COMPREENDE TAMBÉM O TERRITÓRIO ISRAELENSE.

 

O que lhes parece? Mas atenção para o Artigo 13 — que não chega a ser uma homenagem aos petistas, mas poderia ser:
Art. 13 As iniciativas, as assim chamadas soluções pacíficas, e conferências internacionais para resolver o problema palestino se acham em contradição com os princípios do Movimento de Resistência Islâmica, pois ceder uma parte da Palestina é negligenciar parte da fé islâmica. O nacionalismo do Movimento de Resistência Islâmica é parte da fé (islâmica). É à luz desse princípio que seus membros são educados e lutam a jihad (Guerra Santa) a fim de erguer a bandeira de Alá sobre a pátria.

 

Entenderam? Para o Hamas, aceitar a existência de Israel — pouco importam as fronteiras ou o  status de Jerusalém — significa uma renúncia ao próprio islamismo.

Muito dizem: “Ah, o Hamas põe isso lá, mas…” Mas o quê??? Os mísseis que os terroristas lançam COTIDIANAMENTE contra Israel evidenciam ou não que eles se levam a sério? O que pretendem alguns críticos? Que Israel não acredite nas palavras do próprio Hamas, mesmo com a chuva de mísseis, enquanto o movimento terrorista, por acreditar em si mesmo, lança os mísseis?

Israel tem o direito de se defender. Haver eleições no país é parte do processo democrático. Sim, é bem verdade que a população palestina chegou a eleger o Hamas. No poder, o grupo não teve dúvida: deu um golpe, expulsou o Fatah, a facção rival, e passou a governar com poderes ditatoriais, solapando as regras pelas quais se elegeu.

O estado israelense não está moralmente obrigado a negociar com quem quer destruí-lo. É simples assim. É complicado assim.

Fonte: VEJA – Reinaldo de Azevedo