Resolução de comissão do Parlamento israelense anexando região do Rio Jordão acirra tensões em torno da área, da qual palestinos não abrem mão para formar seu futuro Estado independente

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Agricultores palestinos em fazenda no Vale do Rio Jordão: 6 mil deles trabalham em cooperativas de colonos israelenses na região fronteiriça à Jordânia<br />
Foto: Terceiro / NYT/22-12-2013

Agricultores palestinos em fazenda no Vale do Rio Jordão: 6 mil deles trabalham em cooperativas de colonos israelenses na região fronteiriça à Jordânia Terceiro

TEL AVIV – Se não bastassem profundas divergências entre israelenses e palestinos, um ponto de discórdia menos famoso veio à tona em meio às atuais negociações de paz com mediação americana: a quem pertence o Vale do Rio Jordão, uma faixa de 120km de extensão e 15km de largura que ladeia o famoso rio bíblico e liga o Sul do Mar da Galileia ao Norte do Mar Morto? Pouco mais de 20% da Cisjordânia, o Vale do Rio Jordão era controlado pela Jordânia até a Guerra dos Seis Dias, em 1967, quando Israel ocupou toda a região. A faixa de terra sempre foi disputada, mas nunca foi o centro as atenções. Isso acabou no dia 30 de dezembro, quando um comitê do Knesset, o Parlamento israelense, liderado pela deputada linha-dura Miri Regev, decretou a anexação do Vale a Israel.

– A votação é uma afirmação clara do governo de que as comunidades do Vale do Rio Jordão é um bem estratégico e de segurança de Israel e deve continuar em nossas mãos – disse Regev.

A decisão – apenas simbólica – foi suficiente para suscitar guerras retóricas e ameaças pouco veladas de palestinos de suspensão das atuais negociações de paz. A ministra da Justiça de Israel, Tzipi Livni, garantiu que a anexação do Vale não será realmente votada no plenário do Knesset. Mas parlamentares do partido governista Likud, incluindo o ministro do Interior, Guideon Sa’ar, e o vice-chanceler, Zeev Elkin, não perderam tempo e fizeram uma peregrinação até o local para simular a construção de um novo vilarejo. No passado, Israel já anexou dois territórios ocupados na Guerra dos Seis Dias: Jerusalém Oriental e as Colinas de Golã.

– Ficaremos aqui para sempre e sempre haverá soberania israelense no Vale do Jordão – declarou Elkin, para quem Israel não deve voltar às fronteiras da Guerra dos Seis Dias. – As fronteiras de 1967 são as fronteiras de Auschwitz – continuou, dando a entender que uma retirada significaria a destruição do Estado Judeu.

Em meio à polêmica, o jornal Maariv revelou, em pesquisa de opinião, que 73% dos israelenses não concordam em abrir mão da região onde vivem 11 mil israelenses em 22 comunidades e 65 mil palestinos (50 mil deles na cidade autônoma de Jericó). Mas os palestinos não deixaram por menos: em protesto à tentativa de anexação, a Autoridade Nacional Palestina (ANP) realizou uma reunião de gabinete na aldeia de Ein al-Beida. O presidente Mahmoud Abbas fez um discurso enfático prometendo aos palestinos que não fará a paz com Israel sem que o Vale do Jordão se tornem parte de um futuro Estado palestino independente.

“Negar aos palestinos sua única fronteira internacional com a Jordânia é um passo claro para um permanente regime de apartheid consistindo em um Estado com dois sistemas segregados”, declarou o negociador-chefe palestino, Saeb Erekat, em comunicado. “A proposta de anexação mostra até que ponto os israelenses desrespeitam a lei internacional”.

A briga pelo Vale do Rio Jordão explodiu em meio à mais recente rodada de conversas entre palestinos. Dessa vez, o secretário de Estado americano John Kerry está pessoalmente imbuído da missão de conseguir o aperto de mão definitivo que tantos diplomatas já tentaram. Pouco se sabe sobre as discussões – que acontecem longe dos holofotes e em meio a um ceticismo generalizado -, mas a súbita corrida de parlamentares direitistas para o Vale do Rio Jordão leva a crer que a região está em pauta, junto com outros assuntos-chave como o status de Jerusalém e o direito de retorno de refugiados palestinos.

Segundo informações não oficiais, os americanos estariam tentando convencer Israel a aceitar controlar o Vale do Rio Jordão por um período de 10 a 40 anos para depois entrega-lo aos palestinos. A pressão é tão grande que levou o ministro da Defesa, Moshe Ya’alon, a reclamar publicamente do “messianismo” de Kerry, causando mal-estar com Washington.

Um dos motivos alegados pelos israelenses que defendem a anexação do Vale do Rio Jordão seria a importância estratégica da região fronteiriça com a Jordânia. Sem o Vale, o flanco direito do Estado Judeu ficaria descoberto. A colonização da região foi idealizada pelo mitológico general israelense Yigal Alon logo depois da Guerra dos Seis Dias. Ele imaginou uma região repleta de kibutzim e outros tipos de cooperativas agrícolas judaicas A ideia era manter o território em mãos israelenses para criar “fronteiras defensáveis”.

Em artigo para o jornal pró-governo Israel Hayom, o general da reserva Tzvika Fogel afirmou que Israel não pode abrir mão da região. “As recentes discussões sobre uma esperada retirada do Vale do Rio Jordão estão me causando insônia”, escreveu Fogel. Segundo ele, muitas das retiradas israelenses de territórios tiveram como resultado o aumento do terrorismo contra o Estado Judeu:

“Saímos – ou melhor, abandonamos – o Sul do Libano e em menos de cinco anos o Hezbollah capitalizou na falta de lei para estabelecer um Estado terrorista que se tornou uma constante ameaça ao Norte de Isael. Saímos – ou melhor, abrimos mão – da nossa presença na Faixa de Gaza e em menos de cinco anos o Hamas estabeleceu um Estado terrorista que põe em risco a segurança de Israel do Oeste”, alega Fogel. “Imaginem o que aconteceria se saíssemos do Vale do Jordão?”.

Mas alguns especialistas rejeitaram essa noção. Meir Dagan, ex-chefe do Mossad, o serviço de inteligência israelense, deixou isso bem claro numa conferência recente, na qual disse que o controle sobre o Vale do Rio Jordão não é essencial à segurança de Israel, mesmo depois da Primavera Árabe, que levou caos a duas outras fronteiras, com o Egito pós Hosni Mubarak e com a Síria em guerra civil.

– Não tenho nenhum problema com a demanda política de que o Vale do Rio Jordão seja parte do Estado de Israel. O que me incomoda é que isso está sendo apresentado como uma espécie de problema de segurança. – disse Dagan. – Não há mais um exército iraquiano, não há mais uma fronte oriental e há paz com a Jordânia.

Outras vozes de uniram à de Dagan, como a do general da reserva Shlomo Brom, para o qual é preciso “deixar os slogans para trás”. Segundo ele, ameaças militares clássicas vindas de países como Jordânia e Iraque desapareceram nos anos 80. Para Yariv Oppenheimer, diretor da ONG israelense Paz Agora, Israel quer manter a soberania sobre a região não por motivos estratégicos, mas sim econômicos.

– Os agricultores israelenses que moram na área gozam de grandes extensões de terra, além de trabalho palestino farto e barato – acusa Oppenheimer. – O Vale do Rio Jordão se tornou um ativo imobiliário que dá frutos para uma meia dúzia de colonos, que exploram a terra e os recursos hídricos que são essenciais para os palestinos locais.

Os israelenses que moram na região, em geral agricultores seculares, têm outra perspectiva. Segundo David Elhayani, diretor do Conselho Regional do Vale do Rio Jordão, a presença israelense por lá é um exemplo de sucesso econômico numa região semiárida que sempre foi pouco cultivada. Ele conta que 6 mil palestinos trabalham diariamente, em cooperação pacífica, nas comunidades judaicas do Vale, principalmente na colheita de tâmaras (40% do exportação mundial de tâmaras saem da região), pimentões, uvas e ervas como manjericão, orégano e tomilho.

Apesar de descordar da ideia de uma retirada, Elhayani se mostra resignado com a possibilidade de deixar a região e promete que não reagirá com violência. Como ele, a maior parte dos moradores das comunidades israelenses no Vale não têm o mesmo perfil dos colonos ultranacionalistas messiânicos que moram em outras partes da Cisjordânia.

– Deixar nossa casa, o que construímos aqui com nossas próprias mãos é triste, mas assim o faremos se for necessário – diz o diretor do Conselho Regional do Vale, David Elhayani. – Se for o que o povo de Israel decidir, aceitaremos.

Fonte : O Globo